sábado, 15 de novembro de 2014

Algumas considerações a respeito da politica brasileira


Fabio Augusto da Silva Lima 
Contato: fabioasl@gmail.com
 
No último dia 26 de outubro encerraram-se as eleições presidências de 2014, com uma acirrada disputa no 2º turno entre Dilma Roussef e Aécio Neves. Depois de uma campanha de baixo nível, cheia de reviravoltas, polêmicas, morte de um dos candidatos ao pleito, ausência de debate e propostas, venceu a atual presidente, Dilma Roussef, do PT, partido que governa o país há 12 anos.

No entanto, o que mais me chamou atenção não foi a vitória do PT, que sinceramente eu já esperava, mas sim, à ofensiva promovida pela direita conservadora do país, apoiada pela mídia nacional, a fim de atacar o governo e tentar eleger seu candidato a todo custo.

É fato que, nos últimos anos, os movimentos da direita conservadora e liberal brasileiro têm se tornado cada vez mais numerosos, notáveis e organizados. É claro, com todo apoio e suporte da mídia, desde televisa como impressa, personalizada na reacionária revista Veja. O mais absurdo de tudo isso é ver nas ruas e na internet gente defendendo um novo golpe militar, numa intensidade que não se esperava ver alguns anos atrás. Além de ser um retrocesso politico, é no mínimo inconsequente defender a volta de um regime ditatorial e autoritário, que durante anos, fez tão mal ao país.

Esse movimento inclusive, a meu ver, tende ameaçar a médio ou longo prazo o processo de democracia no país. Isso porque, não vejo uma organização de esquerda disposta a enfrentar esse movimento. Pelo contrário, o que vejo é acomodação de um governo que pensa estar acima de qualquer ameaça. Por sua vez, uma parcela significativa dos intelectuais sérios desse país, ou estão calados ou ainda se manifestam de forma tímida. Como afirmou Mather Luther King, “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silencio dos bons.”.

Antes de prosseguir, gostaria de enfatizar que também não estou aqui para defender o governo petista, penso que ele tem falhas e cometeu muitos erros durante o tempo em que governa o país, por exemplo, em não fazer as reformas necessárias, como a política. No entanto, comparado aos 8 anos de governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, foi muito mais popular e eficiente, principalmente no que se refere a diminuição da pobreza e aumento do emprego e da renda do trabalhador.

No entanto, como disse o jornalista Breno Altman “a cruzada de direita para derrotar o PT convocou todos os demônios da sociedade brasileira. Preconceito social, racismo, homofobia, machismo, ódio regional, xenofobismo, fundamentalismo religioso”. Isso ficou evidente nessa campanha, que foi marcada por todos esses aspectos, alias, como aconteceu na última eleição, pregou-se novamente o preconceito contra o nordestino, já que a presidente sai vencedora na região nas duas eleições que disputou, inclusive com a sugestão fascista de alguns grupos de segregação da sociedade brasileira, separando o centro-sul do restante do país.

Nesse sentido, o principal argumento é de que o PT só conseguiu ganhar as eleições na região porque estabeleceu um curral eleitoral por meio do assistencialismo, com a distribuição de benefícios sociais, como o bolsa-família. De fato, há muitos beneficiários nessa região, mas esse argumento é facilmente superado, uma vez que o Nordeste concentra o maior número de pessoas abaixo da linha da pobreza, fruto de séculos de descaso e exploração. Desse modo, o bolsa-família mais do que uma esmola, como muitos cães raivosos defendem, é um instrumento de inclusão social, lembrando que há muitos critérios para o recebimento do beneficio, como ter o filho matriculado na escola regular dentre outras exigências.

Além disso, segundo dados da Caixa Econômica Federal, o 2º estado em número de beneficiários, depois da Bahia, é o estado de São Paulo. Isso mesmo, o estado mais rico da nação, maior reduto da direita brasileira e do PSDB é também um dos que mais recebem recursos do bolsa-família. Veja a contradição, típica de governos do PSDB, que já governa o estado de São Paulo há 20 anos e que vem implementando cada vez mais o choque de gestão, que alias, foi uma das propostas do candidato Aécio Neves, que por sua vez, aplicou a mesma política quando foi governador de Minas Gerais, que em tese, representa a defesa do estado mínimo, com diminuição dos direitos sociais e aumento cada vez maior de privatizações e parcerias publico-privadas.

Mas não vamos nos enganar, sabemos que o que está em jogo é o poder. E isso vale para ambos os lados, tanto para o PT, que vem perdendo cada vez mais sua essência, corrompido aos poucos por um sistema politico viciado, corrupto e de cartas marcadas, como para o PSDB, que quer a todo custo implementar no país seu projeto neoliberal de transformação econômica, social e politica do capitalismo.

Por sua vez, a candidata Marina Silva da Rede Sustentabilidade, com toda sua trajetória politica, de defesa do Meio Ambiente, que já foi do PT e que nessa eleição poderia ser uma terceira via, ou seja, uma alternativa viável no cenário politico nacional tão carente de renovação pareceu ceder ao velho dualismo PT/PSDB, uma vez que por iniciativa pessoal ou por orientação de seu partido, não se sabe, acabou apoiando o candidato Aécio Neves no 2º turno, o mesmo que ela criticava antes, considerando-o representante da velha politica. O tiro saiu pela culatra.

Desse modo, o que me preocupa nesse momento são os rumos do país. Se for verdade que avançamos muito nesses últimos anos, principalmente nos indicadores sociais, há ainda muito a se fazer e as condições atuais não são favoráveis. O mercado e os seus especuladores não vão sossegar enquanto não tiverem um representante de sua “confiança”. Para tanto, como diz o jornalista Mauro Santayana, “contam com uma direita radical, mal informada e burra, que acha que, para ir contra o governo, precisa torcer contra o país.”.

Bom, não é difícil, basta ligar a TV ou abrir o jornal e veremos o discurso tendencioso que vende a imagem de um país em crise permanente. Alias os meios de comunicação brasileira, em minha opinião, são os grandes responsáveis pela ascensão e massificação das ideias da direita conservadora, pregando-se todos os dias noticias ruins, de um país em colapso, com juros e inflação alta, com uma economia frágil, enfim, um maquina a serviço dos interesses da oposição.

Além disso, incitam-se todos os dias o papel da oposição contra o governo, quer dizer, em vez de estimular o dialogo e o entendimento a favor do avanço do Brasil, como propôs a presidente Dilma Roussef em seu discurso de posse, propaga-se a ideologia do anti-petismo. Alías, podemos indagar também: oposição de quem? Para quem? Quais seriam os interesses reais dessa suposta oposição politica?

Sendo assim, a politica tradicional, genuína, sai de cena e em seu lugar, entra o marketing eleitoral, a desregulamentação e a banalização, num processo chamado de Cegueira Moral pelo sociólogo Zygmunt Bauman. Quer dizer, os temas de interesse público, como saúde e educação, por exemplo, são substituídos por questões de âmbito privado, de interesses corporativos e econômicos.

Portanto, o que se vê é uma crise de representatividade política. Não por acaso, é cada vez mais comum a presença no legislativo de figuras ultraconservadoras como Jair Bolsonaro, Marcos Feliciano, dentre outras figuras cômicas como o palhaço Tiririca.

Nesse cenário, só resta ao PT e sua grande base, os movimentos sociais, que desde a sua fundação nos anos 80, após o fim da Ditadura Militar, lutaram pela redemocratização do país e que nesse momento, tem todas as condições de iniciar um movimento a altura desse ataque da direita conservadora. Enfim, devem lutar por uma representação e legitimidade que lhe foram garantidas de forma democrática, pela maioria da população.

sábado, 19 de julho de 2014

Brasil x Alemanha: se a goleada fosse só no campo, mas...


Fábio Augusto da Silva Lima

Chegou ao final, no ultimo domingo, a Copa do Mundo 2014, realizada no Maracanã, na cidade do Rio de Janeiro. Como previsto, antes do torneio, venceu o melhor time, a Alemanha, seleção que apresentou o futebol mais vistoso desde o início da competição, que se não foi brilhante, foi eficiente e vitorioso, diferente do futebol brasileiro, que se despediu com um melancólico 4º lugar.
Se fora de campo, o Brasil conseguiu superar os temores sobre as possíveis dificuldades e problemas de toda ordem, que poderiam acontecer durante o evento, realizando com grande êxito a Copa do Mundo, dentro de campo não podemos dizer o mesmo. Nossa seleção brasileira apresentou uma grande defasagem no que se refere ao futebol moderno, tanto em termos táticos, quanto técnicos e emocionais.
Aliás, comparando o futebol alemão com o futebol brasileiro, fica evidente o contraste dentro de campo, haja vista a sonora goleada de 7x1 aplicada pelos alemães na semifinal do mundial. Esse resultado só comprova as diferenças entre os dois países, que vai muito além do esporte.
Na verdade, venceu a organização, a seriedade, o comprometimento e o profissionalismo alemão contra a desorganização, o imediatismo, o improviso e o jeitinho brasileiro. De fato, se fizermos uma análise mais profunda, digo em termos culturais, essa comparação serve para mostrar a enorme distancia entre os dois países, não só no futebol, mas em outros processos sociais também.
Na educação, por exemplo, a Alemanha apresenta os melhores índices de escolaridade, que refletem diretamente nos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) que tem como objetivo avaliar a cada 3 anos o nível de conhecimento dos alunos nas áreas de matemática, leitura e ciências. Nesse caso, o país europeu, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ocupa a 16º posição, diferente do Brasil, que encontra-se apenas na 58º posição, atrás de países como Chile, México, Costa Rica e Uruguai. Não por acaso, o país alemão já conquistou 102 prêmios Nobel nas mais diferentes categorias, enquanto o Brasil ainda não possui nenhum.
Em termos políticos, a nação alemã possui uma democracia muito mais avançada e sólida que a nossa, tanto em níveis de participação das pessoas na vida pública quanto nas decisões que incidem diretamente na saúde e na qualidade de vida de seu povo, que, aliás, é uma das melhores do mundo, com uma expectativa de vida da população de aproximadamente 89 anos.
Já em termos econômicos, o país europeu está muito a frente do Brasil, principalmente na área de pesquisa e tecnologia, lembrando que a Alemanha é uma das maiores produtoras de energia renovável e sustentável do mundo, diferente de nós que preferimos destruir florestas e reservas indígenas para construção de hidrelétricas.
Nesse sentido, essa análise nos permite lembrar o historiador Sergio Buarque de Holanda, quando diz em sua grande obra “Raízes do Brasil”, que o brasileiro ainda preserva características da herança colonial portuguesa em diferentes aspectos, no qual destacaria dois aqui: o primeiro diz respeito à postura decordialidade refletida na individualidade personalizada no “ídolo” Neymar, acima da coletividade, do trabalho em grupo; e o segundo ao espirito aventureiro, que remete ao fato do brasileiro acreditar que tudo é possível alcançar, mesmo sem planejamento, afinal somos o povo da criatividade e da improvisação.
Isso ficou claro no jogo entre as duas seleções, quando vimos o Brasil partir desesperadamente ao ataque, após o 1º gol da equipe alemã, aventurando-se de forma quixotesca e inconsequente contra uma seleção muito mais preparada e organizada taticamente em campo. Esperava-se talvez que o improviso e a criatividade do jogador brasileiro pudessem fazer a diferença no jogo. Mas não, nem o jeitinho conseguiu tal êxito, o futebol coletivo venceu o individualismo.
De fato, o futebol mundial mudou muito nos últimos anos, passamos a época do amadorismo, hoje se pensa de forma profissional o esporte, mas infelizmente, parece que a mentalidade daqueles que dirigem o futebol brasileiro não mudou. Na verdade, ainda imperam na CBF os interesses pessoais, o clientelismo, a troca de favores, os lucros exorbitantes com patrocínios, em detrimento da evolução, do profissionalismo e da qualidade do nosso futebol.
Por fim, se dizem que às vezes a queda é necessária, pois nos reerguemos mais fortes, que essa derrota da seleção brasileira sirva não só de analise e reflexão, mas que estabeleça um marco para uma mudança estrutural, de pensamento e postura daqueles que estão à frente das decisões do futebol, enfim, que aprendam que a conquista de uma Copa do Mundo passa pelo investimento maciço no esporte como um todo, com incentivos desde as categorias de base, de forma planejada, organizada e profissional, mas não só, passa principalmente pelo investimento em educação, pois como diz Paulo Freire, ela é um dos principais instrumentos para transformação social, e por que não, do futebol nacional. Ora, a Alemanha fez isso com seu futebol há doze anos, e hoje colhe bons resultados, por que então não seguimos esse exemplo?

Referencias
HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. Companhia das Letras. São Paulo, 1998.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

As corporações e o discurso ambientalista: A mais sublime perfumaria.

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Cléder Aparecido Santa-Fé
E-mail: casantafe83@gmail.com


Eu acabei de ler um post no blog do Jamil Chade relatando que a FIFA recusou-se a destinar mais de 0,01% do total da renda dos jogos à causa do tatu bola, mascote da Copa 2014 e espécie ameaçada de extinção.

Cabe salientar que o querido “Fuleco” gerará aproximadamente 30 milhões de reais de lucro aos fabricantes e a FIFA, detentora da patente da mascote, estava disposta a ceder apenas 01 milhão à ONG “Associação Catinga”, entidade responsável pelas ações de preservação do tatu-bola. 

Perante a negativa da ONG, que considerou o valor oferecido muito baixo, e da falta de interesse da FIFA em elevar os valores do repasse da renda, as negociações fracassaram.

Este é mais um caso em que o discurso ecológico e de sustentabilidade é utilizado como perfumaria, ou seja, com a finalidade de produzir uma falsa consciência à sociedade de que os governos e as grandes corporações estão realmente preocupados com as causas ambientais.

Já foi veiculado na imprensa que a FIFA está isenta de arcar com aproximadamente R$ 1 bilhão em impostos, e que estima ter uma arrecadação liquida total de R$ 10 bilhões de reais, 101% a mais do que arrecadado na Copa de 2006 realizada na Alemanha. Fica evidente que a “causa ambientalista” é mais uma falácia ideológica para legitimar a grande política do “pão e circo”. 

Diante do cenário apresentado, torna-se adequado concluir este post com uma paródia da célebre frase do livro “Quincas Borbas” de Machado de Assis: “Aos vencedores, o lucro. Aos tatus-bolas, as batatas”.